A elaboração de um projeto de pesquisa, cujos resultados poderiam justificar a formulação de
uma “proposta para o Brasil”, pareceria uma empresa muito simples, um empreendimento que
repetiria um modo de proceder muito difuso: usado pelo sistema da política, pelos centros de pesquisa
e levantamento de dados, pela imprensa e, no geral, toda comunicação “interessada”. Afirmações
sobre a realidade são formuladas; um projeto de transformação dessa realidade é construído;
conexões causais são inventadas e uma proposta é elaborada.
Mas, não obstante, acontece o que acontece. O futuro não pode ser visto. Quando é visto, não
é o mesmo futuro de antes, mas outro, sobre o qual outras propostas serão apresentadas, do mesmo
modo nas mesmas formas.
No plano da reflexão científica, ao contrário, a questão se torna muito complexa. Ela não é
mais orientada à produção de consenso, nem tampouco à afirmação de expectativas construídas sobre
conteúdo ideal. A reflexão científica é construída sobre a base do conhecimento e é direcionada à
construção de representações do futuro, as quais não são justificadas por um suposto conhecimento
das causas e dos efeitos, mas somente por sua capacity of reasoned elaboration.
A reflexão científica, portanto, se articula em planos diferentes.
Em um primeiro nível, a questão é observar o presente. Mas como é possível observar o
presente? O presente é o tempo do acontecer. Isto é, o tempo da simultaneidade, porque tudo o que
acontece, acontece simultaneamente. Mas isto torna o presente inacessível à observação. Além dessa
inacessibilidade, o presente é o lugar da intransparência. Aquilo que acontece e se realiza no presente

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é o mundo, e o mundo não é transparente. Ora, nós observamos o presente observando os modos
pelos quais a incerteza do futuro –a preocupação pelo futuro– opera sobre escolhas que são efetuadas.
Em um segundo nível, trata-se de determinar no presente uma questão problemática. Trata-se
de estabelecer uma diferença, de distinguir. Isto significa operar seleções. E quem é o observador
que opera essas seleções? O observador não está fora da sociedade, nem fora do tempo. O observador
é, ele mesmo, parte do objeto que observa, parte daquilo que trata como realidade; é parte do mundo
que ele mesmo constrói. Ele é o resultado do presente que ele mesmo diferencia em relação ao
passado e é resultado, também, da comunicação por meio da qual dá um nome àquilo que trata como
realidade, àquilo que ele determina como problema, isto é, como questão problemática do presente.
Em um terceiro nível, trata-se de considerar o presente como “diferencial da função do futuro
e do passado” (Novalis). O passado é o lugar da certeza: da certeza de que nada será como antes. O
futuro opera como o lugar da incerteza, do não-saber. É um tempo que roda sobre o presente, que
desliza sobre o presente; é o tempo que ameaça o presente. Perante o futuro, pode-se somente decidir.
Ora, uma “proposta para o futuro” deveria materializar, na representação, um futuro. Uma
representação que levasse em conta as condições indicadas.
Do futuro, sabemos que muito do que acontecerá depende das decisões que são tomadas no
presente. Sabemos, assim, que não há mais a segurança antiga da continuidade do ser. Sabemos que
o futuro é descontínuo em relação ao passado, que perante o futuro não opera mais nenhuma
teleologia, que na complexidade do presente a causalidade é limitada, assim como toda forma da
velha racionalidade. Ou seja, sabemos, como dizia meu mestre Luhmann, que a sociedade
experimenta o seu futuro como risco. O lugar no qual se constrói o risco é o presente. A sua origem
depende de um excesso de informações sobre o presente que deveríamos saber selecionar. Temos
um excesso de possibilidades de escolha, mas não sabemos como escolher. Temos um excesso de
racionalidades que operam simultaneamente, mas não seguimos uma única racionalidade.
Agora, diante do risco, não somente a causalidade manifesta seus limites, como, igualmente,
a racionalidade. Mas – e é precisamente isso que nos interessa – também o direito manifesta seus
limites.

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3. Proposta
A presente proposta, atendendo aos termos do Edital CBAE 1/2019, consiste na criação, junto
ao Colégio Brasileiro de Altos Estudos, da cátedra Evaristo de Moraes Filho. Evaristo de Moares
Filho foi professor catedrático e emérito da Faculdade Nacional de Direito e fundador do Instituto de
Ciências Sociais da UFRJ e é considerado o grande “arquiteto” da Sociologia e do Direito do Trabalho
no Brasil. Sua obra O Problema do Sindicato Único é, ainda nos dias atuais, uma referência na
articulação dos estudos sociológicos e jurídicos para uma interpretação do Brasil. Evaristo de Moraes
foi um acadêmico, jurista e cidadão exemplar, seja na seriedade de seu trabalho intelectual, seja no
elevado compromisso que manteve, ao longo de sua vida, com os destinos de seu País. Em artigo
publicado no jornal o Estado de São Paulo, em 21 de fevereiro de 1985, Evaristo deixou, como
inspiração para a proposta que ora apresentamos, a seguinte lição: “Não há democracia política sem
democracia social: é preciso que a sociedade, como um todo, não seja esmagada pelo Estado,
impedida de se autoconstruir e manifestar livremente. O momento não é de remendos, mas de
mudanças reais” (apud MOREL, GOMES e PESSANHA, 2007: 244).
Se Evaristo se referia ao Brasil pós-ditadura militar e ao processo constituinte que então se
iniciava, a nossa “proposta para o Brasil” parte das condições da observação do presente e considera
as condições da representação do futuro, o risco do futuro, os limites da causalidade, da racionalidade
e do direito.
Diante da dificuldade de usar a causalidade como modelo explicativo, das limitações e
dificuldades da razão, assim como sua inutilidade para o futuro; diante dos insucessos do pensamento
tradicional para descrever as patologias da comunicação que o próprio pensamento produz; diante
de problemas assim, Gregory Bateson havia construído uma “ecologia da mente”, uma concepção
ecológica de natureza sistêmica baseada sobre a impossibilidade de separar organismo e ambiente e
sobre a flexibilidade dos modelos de ação que descrevem as relações entre os organismos e seus
ambientes.
Para elaborar as ideias que justificam a nossa "proposta para o Brasil", também gostaríamos
de elaborar uma ecologia, a qual deverá ser uma ecologia do não saber. O pensamento tradicional
está fadado ao fracasso porque se baseia no pressuposto de "saber". Basta observar as condições
atuais do trabalho, para perceber que as decisões que as tornaram possíveis eram baseadas em
hipóteses implausíveis. Basta considerar a violência que existe em todos os cantos do país, para
perceber que as políticas de segurança não apenas não reduzem a violência, mas estão destinadas a
expandi-la. Basta considerar a taxa de analfabetismo funcional que nos cerca, para perceber o fato

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de que as decisões que delinearam os atuais sistemas educacionais eram desprovidas de qualquer
fundamento de realidade; por fim, basta considerar o nível de corrupção a que estamos submersos,
para perceber o fato de que a guerra moral permite que ela subsista como antes.
A nossa proposta para o futuro pretende oferecer uma reasoned elaboration dos espaços
jurídicos do futuro. Estes espaços são elaborados no interior de uma representação do futuro como
risco e na certeza da competência limitada do direito para o tratamento do risco.
Com base nessas premissas pretendemos propor:
1) ideias que podem mudar a percepção da "segurança" através da ativação de práticas de
tratamento do risco e do seu deslocamento. Isto pode ser alcançado também através da
abertura de espaços jurídicos compartilhados de ação social.
2) ideias que podem transformar o trabalho. Pretendemos pesquisar quais são, na
sociedade brasileira atual, as possibilidades para uma redução gradual do trabalho que
produz valor e ao mesmo tempo propor a construção de espaços jurídicos para uma expansão
gradual do trabalho que produz sentido.

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