O espaço estava cheio antes mesmo do início da celebração. Na sala principal, instalada no prédio histórico sede do CBAE, no Flamengo — onde o antigo Hotel Sete de Setembro guarda memórias da cidade — a plateia se ajeitava entre abraços e reencontros; e, a certa altura, já não era possível distinguir onde terminava a emoção e começava a conversa. A inauguração do novo Espaço “Antonio Barros de Castro, Carlos Lessa e Maria da Conceição Tavares” devolveu aos presentes uma sensação rara: a de que a universidade pode ser, ao mesmo tempo, casa de afetos e laboratório de futuro. O ambiente — cuidadosamente restaurado e equipado para atividades híbridas, com sala principal para cerca de 60 pessoas, integrado ao conjunto arquitetônico do CBAE — ajudou a definir o tom da noite: respeitar o passado e operar, com rigor e imaginação, no presente e no porvir.
Foi uma roda de conversa em forma de tributo — e um tributo que soou como aula aberta. Nas primeiras falas, um consenso se formou sem esforço: Castro, Lessa e Conceição não eram apenas grandes economistas; eram mestres, daqueles que atravessam gerações e deslocam bússolas intelectuais. Sentados em torno da mesa em U, os presentes pareciam carregar histórias pessoais consigo; cada lembrança acendia uma centelha do método e da coragem que os três ensinaram a cultivar.
Houve risos, lágrimas discretas e, sobretudo, a sensação de banquete intelectual — expressão que, dita ao microfone, virou mote da noite. “É um banquete”, repetiu-se, como quem reconhece a fartura de ideias e de afeto compartilhados.
Entre os muitos momentos marcantes, alguns fizeram o tempo parar. Ricardo Bielschowsky, aluno e amigo de décadas, ofereceu à plateia um retrato que tocava algo essencial: “Sua amizade foi das riquezas da minha vida; seu conhecimento era imenso e seu afeto, também.” A frase, dita por quem conheceu Antonio Barros de Castro por dentro, condensou o que tantos sentiam ali — a inteligência, sim, mas também a presença humana como força de transformação.
Lavínia Barros de Castro trouxe a casa ao centro do palco e, com a serenidade de quem fala do pai e do intelectual, desarmou qualquer solenidade vazia: “Meu pai odiava a palavra ‘legado’.” A plateia sorriu — e entendeu. Não se tratava, naquele encontro, de empalhar memórias, mas de pôr ideias para trabalhar. “A aposta maior dele era uma sociedade do conhecimento que incluísse todo mundo.” O verbo no presente — apostar — soou natural, como se Castro ainda estivesse ali, apontando brechas e possibilidades.
Do lado de Maria da Conceição Tavares, vieram lembranças com o tempero da convivência e a energia do embate. Franklin Serrano contou, entre risos, que o primeiro telefonema da economista foi “um palavrão”, seguido de um clique na linha; pouco depois, vieram a amizade, as conversas sem concessão e a régua que ela nunca poupava de ninguém. “Conceição tinha alta intolerância a resultados medíocres e ideias mal pensadas”, resumiu. Em duas frases, o espírito da professora: paixão inegociável por pensar o Brasil com ambição e coragem.
Carlos Lessa apareceu nas palavras dos colegas como um tribuno generoso, desses que incendiavam auditórios com humor, erudição e uma brasilidade afetiva — a ponto de Fábio Sá Earp lembrar que, mesmo na molecagem, havia método e uma ética do público. Sua Enciclopédia da Brasilidade, obra de maturidade à qual dedicou anos, foi lembrada como gesto de formação: material precioso e de circulação restrita, concebido para despertar pertencimento e curiosidade. Ali mesmo se aventou a ideia de estudar caminhos para tornar esse acervo mais acessível ao público, em diálogo com a UFRJ e parceiros — uma forma de prolongar, no tempo digital, o impulso pedagógico que movia Lessa.
No fluir das falas, a mediação firme e elegante de Ana Célia Castro deu cadência de crônica coral à noite. Houve lugar para a análise histórica, para o comentário biográfico, para o dado técnico — e para o riso, sempre que a lembrança de sala de aula pedia. Aspásia Camargo afinou o diapasão do tributo com uma convocação: “Precisamos de um projeto de país que una identidade nacional e Estado de bem-estar.” A frase pousou com naturalidade sobre os três homenageados, que sempre recusaram a dicotomia entre crescimento e inclusão.
A certa altura, a conversa retornou a Castro — e Maria Antonieta Leopoldi amarraria a cena com precisão de historiadora: o que fazia de Castro um visionário não era futurologia fácil, mas a capacidade de “ver as tendências estruturais por baixo do ruído” e apostar no progresso técnico como política de Estado. Não por acaso, sua leitura sobre o governo Geisel — pedra de toque para entender escolhas industriais e institucionais do país — seguiu ecoando ali como lente que ainda ilumina dilemas presentes.
No plano afetivo e no plano das ideias, Renato Boschi sublinhou aquilo que a roda demonstrava por si: a universidade é trabalho coletivo, feito de redes de confiança e de debate público, e esse novo espaço do CBAE nasce para abrigar exatamente isso — trânsito entre disciplinas, diálogo intergeracional, enfrentamento de controvérsias. Ao fim, a síntese parecia evidente: celebrar mestres é reafirmar um método de pensamento, não apenas recordar biografias.
A força do encontro esteve também nos pequenos gestos. Um ex-aluno contou como Conceição transformava uma pergunta atravessada em guinada de pesquisa; outro lembrou o humor de Lessa ao explicar um conceito espinhoso com uma história de botequim; uma ex-orientanda de Castro confessou que aprendeu com ele a mirar alto sem perder a delicadeza. Quando Bielschowsky evocou um “quarteto de ouro do estruturalismo” — com o trio e Luiz Carlos Bresser-Pereira — já ninguém precisava de argumento adicional: as trajetórias falavam.
Era impossível, contudo, ignorar o cenário. Um espaço novo dentro de paredes antigas: o contraste entre modernização e memória parecia explicar por que aquela noite tinha algo de rito de passagem. O Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT/PPED) restaurou este ambiente do CBAE e o dotou de infraestrutura audiovisual e conexão para encontros híbridos, não como adereço, mas como condição de circulação do pensamento — rodas de conversa, cursos, disciplinas, debates — e como aposta na abertura ao público para além dos muros físicos. O endereço histórico mantém a espessura do tempo; a técnica amplia os alcances da conversa.
No desfecho, Ana Célia agradeceu oradores e público, lembrando que a noite tinha sido também um exercício de cuidado — com a linguagem, com a divergência, com a cidade. “Banquete intelectual”, alguém repetiu outra vez, já quase como bênção. E talvez seja isso que o novo espaço proponha: reunir gente para pensar o Brasil com fome e com método, como fizeram — e fazem, pelos alunos que deixaram — Castro, Lessa e Conceição. Aquela trindade das intensidades que, no léxico dos amigos, virou quase um gênero literário: o ensaio falado, a aula-debate, a provocação generosa.
Se tributos costumam encerrar ciclos, aqui o gesto foi o inverso: abriu-se uma casa. Modernizada por dentro, antiga por fora, popular por vocação, acadêmica por exigência — uma casa para que o pensamento volte a se encontrar com a vida. E para que a memória de três mestres faça aquilo que sempre ensinou: empurrar o tempo para a frente.
Ao apagar das luzes, restava a sensação de que os três voltaram a conversar. Não estavam materialmente, mas em espírito e na vibração das palavras, no riso que ecoou diante das lembranças, no silêncio respeitoso após cada citação. O novo espaço, moderno em suas formas e histórico em sua alma, guarda agora essa presença. Um lugar onde passado e futuro se encontram — e onde três mestres continuam a ensinar que o pensamento crítico é, também, um ato de esperança.
Esta crônica é uma homenagem da equipe técnico-administrativa do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento a Antonio Barros de Castro, Carlos Lessa e Maria da Conceição Tavares — e a Ana Célia Castro, cuja arte de reunir pessoas, saberes e gerações, junto à dedicação de sua equipe, tornou este e tantos outros encontros possíveis.
Em reconhecimento, assinam, em nome das equipes que assessoram o CBAE e o INCT-PPED: Bárbara Calabria, Cecilia Salek, Daniel Volchan, Fernando Vasconcelos, Guilherme Aguiar, Letícia Simões, Maristela Santiago de Souza, Míriam Maia, Raquel Bastos, Sean Barbosa, Solange Jorge, Sonia Laís da Rocha, Vera Barradas e Wellington Gonçalves.
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