Os desafios para a universidade pública e para a ciência brasileira no contexto atual, com um controle de gastos sendo imposto pelo governo, foram tema de mesa redonda no Colégio Brasileiro de Altos Estudos. “A universidade e os desafios da ciência brasileira” inaugurou o ciclo “Diálogos universitários: Ciência, cultura e universidade”, que pretendia reunir pesquisadores de diversas áreas para debater sobre o futuro do Brasil.
Para essa primeira atividade, realizada no dia 3 de novembro de 2016, foram convidados o doutor em Ciências Biomédicas, Julio Scharfstein, o físico e diretor da Academia Brasileira de Ciências, Luis Davidovitch, a doutora em Ciências Biológicas, Renata Meirelles, e o antropólogo e renomado pesquisador Otávio Velho.
Eles discutiram como o não reconhecimento da educação como investimento interfere no campo, gerando uma precarização. Logo em uma das primeiras falas, Davidovitch lembrou ainda o aspecto “jovial” do ramo da ciência e tecnologia no país.
Com a participação de John French, Alexandre Fortes e Stephanie Reist, o CBAE realizou a palestra “Avanços e desafios na expansão do ensino superior: reflexões a partir do caso da Baixada Fluminense”, no dia 22 de setembro de 2016. Na conversa, foram abordados o quadro de marginalização da Baixada Fluminense e, ao mesmo tempo, dos impactos da ampliação de instituições universitárias na criação de novas oportunidades educacionais e de profissionalização e no desenvolvimento da região.
Brasilianista, French é doutor em história do Brasil pela Universidade Yale e professor de História na Universidade Duke. Tem interesse por temas relacionados à classe trabalhadora, escravidão, legislação, política, economia e cultura popular na América Latina. É autor dos livros “O ABC dos operários: conflitos e alianças de classe em São Paulo (1900-1950)” e “Afogados em Leis: a CLT e a cultura política dos trabalhadores brasileiros” e, desde 2005, trabalha em uma biografia do ex-presidente Lula.
Diretor do Instituto Multidisciplinar de Nova Iguaçu da UFRRJ, Fortes possui doutorado em História pela UNICAMP. Sua área de pesquisa abrange a história do trabalho, história da esquerda e movimentos sociais na América Latina. Atualmente integra a Red Latinoamericana de Historia Global. Já Reist é estudante de doutorado em Estudos Latino-Americanos na Universidade Duke, onde pesquisa a ocupação urbana no Brasil e na Colômbia. Trabalhou no Projeto Raízes Locais, um projeto comunitário gerido pela Associação Terra dos Homens, em Duque de Caxias, analisando a dinâmica centro-periferia, pertencimento, cidadania e direitos sobre a terra.
Os pesquisadores apresentaram o panorama inicial do estudo sobre o tema, fruto da parceria da Universidade Duke (EUA), que French e Reist integram, com o Instituto Multidisciplinar da UFRRJ, do qual Fortes é o diretor. No projeto “The Cost of Opportunity: Higher Education and Social Mobility in the Baixada Fluminense”, foi organizada uma equipe com estudantes de graduação e pós-graduação de Duke e do IM/UFRRJ para conhecer melhor os efeitos provocados pela expansão universitária na região, inspirados na realidade do IM/UFRRJ, de Nova Iguaçu, que completa dez anos em 2016.
Os convidados destacaram a importância da concretização do espaço universitário para a inserção de novos sujeitos sociais e para uma mudança cultural na região. A Baixada Fluminense é uma localidade muito marginalizada, que sofre com o estigma de violência e da ausência de garantia um futuro para os seus moradores. Para os pesquisadores, a presença de um polo de ensino superior seria capaz de desenvolver a região e trazer esperanças para os jovens que lá residem.
De acordo com French, esses foram fatores considerados pela Duke University ao escolher o IM para ser contemplado pela iniciativa. Segundo Fortes, há dificuldade dos jovens da localidade acreditarem que é possível o ingresso na universidade, mas que essa realidade vem mudando e o IM acaba por receber muitos jovens que são os primeiros da família a ingressar no Ensino Superior.
Considerada uma instituição historicamente voltada para elite branca sulista, a Universidade Duke passa pela mesma experiência de ter alunos de “primeira geração”. Por conta disso, houve, segundo Reist, uma identificação entre os alunos do projeto vindos de Duke e da UFRRJ.
Com base nisso, French reiterou a necessidade de qualificar seus alunos ao declarar que a ambição social é combustível para rebeldia. A partir disso, eles lutariam por uma melhor qualidade de vida e pela concretização dos sonhos. Nesse contexto, French fez uma comparação com a história do ex-presidente Lula, sobre o qual o historiador escreve biografia. Segundo ele, a partir do ingresso no SENAI, o ex-operário pôde sonhar mais alto. Entrou pro sindicato, comandou mobilizações, até chegar à presidência.
Ao serem questionados pelo público presente, os pesquisadores demonstraram preocupação com a atual situação política do Brasil. Segundo eles, com as mudanças propostas pelo atual governo, o direito ao acesso ao ensino superior e a gratuidade das universidades públicas estão ameaçadas.
Tendo por referência a experiência dos institutos de estudos avançados de universidades estadunidenses e europeias, as universidades brasileiras, desde a USP em 1986, têm procurado encontrar seu próprio caminho na constituição destes centros produtores de ideias de vanguarda e de caráter interdisciplinar.
Com esta função, o Colégio Brasileiro de Altos Estudos, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, procurará articular e dar guarida a especialistas da UFRJ e de outras universidades em grupos de pesquisa em torno de polos temáticos transversais. Além disso, estes polos terão em comum um caráter de centro de documentação e produção de acervos, utilizando-se para isso da tecnologia digital disponibilizada para o conjunto das atividades do CBAE, bem como de recursos do Fórum de Ciência e Cultura, centro universitário ao qual pertence.
Nessa categoria é possível encontrar registros multimídia dos eventos realizados pelo CBAE desde 2012. São vídeos, áudios, fotografias e textos disponíveis para consulta online, sobre temas de diferentes campos do conhecimento. Aqui, promovem-se congressos, colóquios, exposições e programas que atingem a premissa de fomentar o intercâmbio científico, cultural e artístico.
Utilizando tecnologia digital, nos aproximamos do caráter de centro de documentação e produção de acervo planejado pela instituição. A disseminação dos saberes, acreditamos, proporciona reflexão propositiva sobre o futuro ao estabelecer um encontro entre as sociedades civil e científica.
O CBAE conta com apoio de diversos institutos para a realização de seus eventos. Esses podem ser encontrados na página .
Por iniciativa do Museu de Antropologia da Universidade da Columbia Britânica, do Canadá, o Colégio Brasileiro de Altos Estudos recebeu um seminário sobre o papel dos museus na cidadania. Para isso, reuniu inúmeros pesquisadores da área em duas mesas redondas no dia 19 de agosto de 2016: “Práticas museológicas alternativas na produção de conhecimento” e “Experiências de museologia como prática cidadã”.
O evento consistiu de duas mesas redondas. A primeira abordou as práticas museológicas alternativas na produção de conhecimento; enquanto a segunda mesa chamou-se “Experiências de museologia como prática cidadã”. Ao longo do dia, foram feitas diversas análises sobre o amplo quadro que possibilitou a formação dos museus, bem como que tipo de carência os atingiu no passado e no presente. Ressaltou-se a importância da representação histórica para a sociedade, e como a própria sociedade civil tem ocupado o espaço museológico.
No ato de abertura, os organizadores abriram espaço para a troca de opiniões e reflexões sobre o processo político enfrentado no momento e alternativas à ele. Nuno Porto, curador do Museu de Antropologia da UBC, considerou o momento como decisivo para que os intelectuais brasileiros se posicionassem na luta.
O golpe ocorrido no Brasil foi tema de debate realizado no dia 1º de Junho de 2016 no Colégio Brasileiro de Altos Estudos. “Democracia e Questões Capitais: Por que Golpe?”, contou com a participação de James Green, Fabiano Guilherme Mendes Santos, Jeferson Scabio e Yasmin Motta. O objetivo da conversa era entender por que a situação que o Brasil passava podia ser entendida como um golpe. Green é professor de história e estudos brasileiros da Universidade de Brown e preside o New England Council on Latin American Studies. Fabiano Santos é professor de Ciência Política do IESP-UERJ e editor associado da Journal of Politics in Latin America. Scabio cursa doutorado em Antropologia Social no PPGAS/UFRJ e é especialista em violência urbana e segurança pública. Yasmin Motta é estudante de Ciências Sociais do IFCS e faz parte do Centro Acadêmico de Filosofia e Ciências Sociais (CAFILCS). O evento fez parte do ciclo de debates “Democracia e Questões Capitais” organizado pelo PPGAS/UFRJ acerca da conjuntura política do país.
A palestra “Movimento operário nas Astúrias” aconteceu no dia 27 de junho de 2016 e encerrou o ciclo de palestras “Novas questões sociais, trabalhadores urbanos, trabalhadores rurais: História e Perspectivas”. Comandado pelo historiador espanhol Rubén Vega, o evento tratou sobre a luta dos trabalhadores da região das Astúrias. Como debatedoras, foram convidadas Elina Gonçalves e Marta Cioccari.
Formado na Universidad de Oviedo e autor de inúmeros livros sobre o tema, Vega possui especialização no estudo do movimento operário em Astúrias, tanto no período pós-Franco quanto no de desindustrialização da cidade. Dirige o “Archivo de Fuentes Orales para la Historia Social de Astúrias” (AFOHSA), responsável por recolher, conservar e difundir a experiência dos trabalhadores da cidade.
As debatedoras foram Elina Gonçalves e Marta Cioccari. A antropóloga Elina Gonçalves, além da ampla experiência de estudo no campo de trabalho e resistência operária, dirige o Arquivo de Memória Operário do Rio de Janeiro da UFRJ. Cioccari é jornalista e antropóloga, e atualmente é pesquisadora associada ao Programa de Memória dos Movimentos Sociais (MEMOV), do CBAE, e professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
O ciclo “Novas questões sociais, trabalhadores urbanos, trabalhadores rurais: História e Perspectivas” foi coordenado por José Sergio Leite Lopes (PPGAS/MN/UFRJ) e Beatriz Heredia (PPGSA/IFCS/UFRJ).