Entre Ícones e Aparelhos: Filosofia, Guerra e Tecnologia na Era das Imagens — Lançamento de Livro

20 OUT – SEG – 17H

Cátedra Vilém Flusser

Cátedra José Bonifácio de Andrada e Silva

CONVIDAM

Lançamento dos livros “Sailing to Byzantium: Icons, Apparatuses and the Mind-Body Problem”, de Felipe Loureiro, e “An End to Eternity? Vilém Flusser, Contemporary War and Geopolitics”, de Marcus A. Lessa

Os autores Felipe Loureiro (Cátedra Vilém Flusser) e Marcus A. Lessa (Cátedra José Bonifácio de Andrada e Silva) convidam para o lançamento dos dois primeiros livros da série Guerra e Paz — uma ação conjunta das duas cátedras voltada a promover ensaios originais e a reunir diferentes perspectivas e interpretações de obras clássicas.

Presencial:

Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, Av. Rui Barbosa, 762 – Flamengo, Rio de Janeiro.

“Estratégias de reconversão do campesinato e das elites agrárias brasileiras; uma homenagem a Afrânio Raul Garcia Jr”

16 OUT – QUI – 14H/17H

Cátedra Afrânio Raul Garcia Jr. de Memória, Trabalho, Movimentos, Direitos Humanos

A mesa inaugural da Cátedra, criada para investigar criticamente os usos do passado em torno da memória, do trabalho, dos movimentos sociais e dos direitos humanos, se propõe a revisitar dimensões centrais da obra de seu patrono, Afrânio Raul Garcia Jr. Ao enfatizar o peso do mundo rural na constituição da sociedade brasileira, o debate buscará evidenciar como a história do campesinato, os conflitos fundiários e a atuação das elites agrárias moldaram o país, ao mesmo tempo em que lança luz sobre os desafios contemporâneos do trabalho, da cidadania e da sustentabilidade socioambiental. A proposta é articular trajetórias de pesquisa e interpretações críticas que, partindo da análise histórica, projetem perspectivas de futuro para a democracia e para os direitos humanos no Brasil.

Coordenador e mediação:

José Sergio Leite Lopes – Titular da Cátedra

Antropólogo, Professor Titular do Departamento de Antropologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ex-diretor do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da Universidade Federal do Rio de Janeiro – CBAE/UFRJ (2012-2019). Fez graduação em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1969), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1975) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1986). Fez pós-doutorado na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris (1988-1990). É professor do Museu Nacional-UFRJ desde 1978. Foi professor visitante na Universidade Federal de Pernambuco (2003-2006). Tem experiência na área de Antropologia Urbana, atuando principalmente nos seguintes temas: antropologia do trabalho e dos trabalhadores, meio ambiente e conflitos sociais, história social das ciências sociais relacionadas ao trabalho, antropologia do esporte e memória dos movimentos sociais. Além de coordenar o Programa de Memória dos Movimentos Sociais – Memov, sediado no CBAE/UFRJ, é também desde agosto de 2019 coordenador da Comissão Memória e Verdade da UFRJ. Tornou-se professor emérito por solicitação do Museu Nacional/Fórum de Ciência.e Cultura/UFRJ, com aprovação pelo Conselho Universitário da UFRJ, conforme sessão em 13 de junho de 2024

Convidados:

Ana Célia Castro, José Sergio Leite Lopes, Sergio Pereira Leite (CPDA), Mario Grynszpan (UFF) , John Comerford (MN) e Patrícia Ramiro (UFPB, pós-doc no MN).

Presencial:

Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, Av. Rui Barbosa, 762 – Flamengo, Rio de Janeiro.

Transmissão:

Canal do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ no YouTube

Decifra-me ou te devoro, o feitiço na era das plataformas

A cena é mínima e precisa: uma câmera aberta, o professor em casa, falando direto ao público. Os alunos inscritos acompanham pela sala do Zoom; o restante, pelo YouTube do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. Antes de mergulhar no tema, ele se apresenta: professor da Escola de Comunicação da UFRJ, pesquisador dos programas de pós-graduação e nome reconhecido no debate sobre comunicação e capitalismo. “Venho há muito tempo trabalhando com esses temas… e o papel da internet é absurdamente central para o funcionamento do capitalismo que conhecemos”, diz, em tom de quem sabe o terreno que pisa.

A Cátedra Álvaro Vieira Pinto — oferecida pelo Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ (CBAE) — abre com um módulo introdutório: “capitalismo do espetáculo, fetichismo da mercadoria e meios de comunicação”. O objetivo é dar a espinha dorsal teórico-metodológica do curso e apontar as trilhas seguintes; em 31 de maio de 2022, a voz condutora é a de Marcos Dantas.

Dantas começa por uma constatação cotidiana, quase confessionária: “A nossa vida é muito agendada pelo que a gente vê na TV, pelo que ouve no rádio, pelo que está no jornal e, agora, também pelo WhatsApp e pelo Facebook.” O termo de Guy Debord ganha corpo — espetáculo não é “apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social mediatizada por imagens” que organiza hábitos, desejos, pausas e reprises do dia. Do barbeiro à sala de estar, “a gente para a atividade para ver uma novela… ou um jogo de futebol.”

Daí ao fetiche, o passo é curto. O professor chama Isleide Arruda Fontenelle para a conversa — e a frase que fisga o leitor: “Não basta tomar refrigerante, tem que ser Coca-Cola… não basta comer hambúrguer, tem que ser McDonald’s.” O nome — a marca — torna-se o objeto de desejo. “A marca parece perverter o próprio fetiche… uma espécie de fetichização do fetiche.” Em linha com Fontenelle, a marca radicaliza o processo: as pessoas deixam de se referir às coisas e passam a se referir às imagens das coisas. No limite, aquilo que antes era atribuído a forças divinas, hoje se chama “mercado” — onipresente e sem rosto.

A marcha do raciocínio encaixa Marx no presente. Se o capital se multiplica pela rotação, convém reduzir ao mínimo os intervalos entre produção, circulação e realização. “Quanto mais esse tempo tende a zero… tanto mais rápida a rotação do capital e maior a massa anual de mais-valor”, recorda Dantas. “Hoje vivemos em um tempo tendendo ao limite de zero — sobretudo nas etapas digitalizadas proporcionadas pela internet.” A informação, que antes acompanhava a mercadoria em seu percurso, agora se antecipa a ela — constrói desejos antes mesmo do produto existir. É esse encurtamento radical que redefine a economia: distâncias se dissolvem e decisões se precipitam em ritmo acelerado.

Para entender quem manda nesse jogo, Dantas aciona a ideia de corporações-rede: empresas cuja inteligência (P&D, marketing, design) pulsa em um núcleo e cuja produção se espalha em cadeias globais, enquanto a marca, por cima de tudo, organiza pertencimentos e preferências. O que se vende, repete ele, é o nome. O consumo, cada vez mais apoiado em signos e estilos de vida, transforma a diferença estética em valor.

É aí que a sociedade do espetáculo encontra sua engenharia econômica. O professor não foge da polêmica que vem da economia política da comunicação: o que a TV vende é audiência. “O que interessa ao anunciante é aquele milhão que está na frente da tela.” Há um trabalho semiótico do público — atenção, tempo, interpretação — que entra no circuito de valorização. Na tradição crítica, esse público é concebido como mercadoria; na prática do mercado, as métricas — como cliques e engajamento — funcionam como moeda. “Mesmo quem discorde da formulação, percebe o deslocamento: no mercado das telas, o olhar coletivo se converte em referência de valor e unidade de troca.”

O fio segue: quando a utilidade de muitos bens passa a ser estética — “gerar emoção, sentimento” — o espetáculo encurta ainda mais o giro: eventos e lançamentos têm vida útil instantânea, projetando a próxima onda enquanto a anterior ainda reverbera. A publicidade ensaia sua paráfrase da arte; o design assume o centro; e o capital, para acelerar consumo e reposição, aposta numa cultura do descartável, como lembram leituras que Dantas convoca no percurso.

No fundo, o diagnóstico mira a transformação do próprio material de trabalho: signos. “A mercadoria é também signo”, lê Dantas, para então recolocar o problema em 2022: em vez de apenas produzir objetos, produzimos projetos, marcas, experiências — informação que, ao ser registrada, processada e comunicada, compõe a base do que ele chama de capitalismo informacional.

Quando ele convoca “transportes e comunicações”, não há figura de linguagem: é chão e é símbolo. De um lado, navios, aviões e rodovias — indústrias cujo valor de uso é o próprio movimento e cuja “mercadoria” se consome no ato, durante o processo. De outro, data centers, telégrafo, rádio, TV e redes, que fazem a informação correr à frente da mercadoria, encurtando o tempo de rotação do capital. Por isso, não são adereços: em parte prolongam o processo produtivo (caso do transporte necessário à realização do valor) e, em parte, compõem funções de circulação que encurtam prazos e coordenam fluxos.

Daí à internet, o passo é lógico: “quanto mais esse tempo se aproxima de zero, tanto mais o capital se valoriza”, lembrou o professor — e a rede é a realização mais aguda desse limite. Hoje, os chamados “jardins murados” — ecossistemas fechados, aparentemente abertos, mas vigiados, regulados e que concentram dados, distribuição e mensuração sob regras próprias — comprimem a infraestrutura material e a mediação simbólica do desejo, como se anulasse o espaço pelo tempo: do anúncio ao clique, do clique à entrega, quase sem fricção.

Chegamos, enfim, às plataformas sociodigitais — não só digitais, insiste, porque “são produtos da sociedade e agem na sociedade”. No ambiente em rede, a compressão do tempo se torna regra operacional; o capital precisa de meios de comunicação para gestão, trânsito financeiro e produção de público. E é pela mesma via que o retorno chega, em forma de dados, cliques, indicadores e vendas.

A cena se fecha, de propósito, na sua televisão ou no seu celular: ao ver o gol brilhante, o olho vai ao lance — mas é a marca que captura o desejo, insinuada na vinheta e explícita nas placas que cercam o território.

No debate que se seguiu, as perguntas do público puxaram o fio para questões de hoje: a propriedade intelectual, cercada pelas plataformas; a vigilância, que busca predizer e modelar comportamentos antes mesmo que surjam; a democracia, atravessada por algoritmos que decidem o que circula. Dantas respondeu sem perder o compasso: “O capital precisa saber o que você vai desejar antes mesmo que você saiba.” O comentário, seco e preciso, funcionou como síntese da noite.

Essa aula — densa, segura, didática — inaugurou o curso “Capitalismo de Plataformas: Financeirização e Apropriação da Cultura, do Conhecimento e das Comunicações”, que se desdobra em diferentes campos e práticas sociais sob olhar crítico sobre como o capital financeiro e as tecnologias digitais reconfiguram produção e consumo.

No Aconteceu do CBAE, cabem as aulas que ressoam para além do instantâneo. Esta ressoa. Porque, na voz ora calma ora enérgica que sobe e desce ao explicar conceitos, Dantas reata dois pontos do nosso tempo: o feitiço (a mercadoria que encobre as relações) e a tela (o espetáculo que organiza a vida), sob a lógica das plataformas (onde ¹o capital realiza seu ideal antigo: fazer do tempo um quase nada). Não é metáfora: é método. E, como feitiço, também é alerta.

Texto: Wellington Gonçalves Revisão: Marcos Dantas

A crônica faz referência à aula Capitalismo do Espetáculo, Fetichismo da Mercadoria e Meios de Comunicação, parte do curso Capitalismo de Plataformas, ministrada em 31/05/2022 e transmitida pelo canal do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ no YouTube. Disponivel em: Transmissão YouTube – Aula Capitalismo do Espetáculo, Fetichismo da Mercadoria e Meios de Comunicação.

¹A formulação “o capital realiza seu ideal antigo: fazer do tempo um quase nada” condensa, em chave ensaística, a tese de Marx sobre a redução do tempo de circulação (cf. O Capital, Livro II). Trata-se de extrapolação crítica: Dantas observa que o tempo tende a zero nas etapas digitalizadas, mas não afirma literalmente a realização desse “ideal”.

UFRJ 105+: Trajetória, Agenda e Futuros Compartilhados

25 SET – QUI- 17H

Apresentação:

No marco dos 105 anos da UFRJ, o Programa de Cátedras do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ reafirma a força da universidade na produção de conhecimento crítico e plural. Cada Cátedra traz uma lente singular para compreender os desafios do presente e projetar horizontes para o futuro, cobrindo temas como política industrial e inovação tecnológica; história e patrimônio; desigualdades sociais e vitalidade democrática; juventudes, subjetividades e práticas culturais; educação e trabalho; e as interfaces entre ciência, saúde e sociedade. Ao integrar essas contribuições, as Cátedras sustentam a trajetória e a agenda do CBAE, ampliando o impacto social e intelectual da UFRJ e oferecendo testemunhos que articulam memória, experiência e a construção de futuros compartilhados para a universidade e para o país.

Participantes:

Adalberto Vieyra, Adriano Proença, Andrea Daher, Cláudia Mermelstein, Elisa Reis, Helena Theodoro, Lúcia Rabello de Castro, Manoel Costa, Priscila Machado Vieira Lima, Ronaldo Mota – Titulares de Cátedras do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ.


Coordenação:

Ana Célia Castro – Diretora Geral do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ

Presencial:

Espaço Castro, Lessa e Conceição do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, Av. Rui Barbosa, 762 – Flamengo, Rio de Janeiro

Transmissão:

Canal do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ no YouTube

MedCine: Miss Evers’ Boys

10 OUT – SEX – 18H

A Cátedra Carlos Chagas Filho de Fronteiras da Biologia e da Medicina do Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e alunos de medicina da UFRJ convidam para o cineclube “MedCine”. Estamos assistindo filmes que envolvam temáticas médicas e/ou científicas, e depois fazemos uma breve discussão sobre o filme.

A 8ª sessão de 2025 será no dia 10 de outubro, de 18 às 22 horas, no CBAE, Av Rui Barbosa 762, Flamengo. O filme a ser exibido é “Miss Evers’ Boys”, que conta a história de um experimento não consentido durante uma epidemia de sífilis em 1932.

Esta será uma Sessão conjunta em comemoração ao Centenário do Departamento de Doenças Infecciosas e Parasitárias (DIP) da Faculdade de Medicina da UFRJ

Alunos da UFRJ que se inscreverem no MedCine como atividade de extensão vão ganhar créditos se assistirem três ou mais sessões no semestre, ou pelo menos 6 sessões no ano.

Oferecemos refrigerante e pipoca.

Mais informações e a lista dos filmes que já assistimos em

https://sites.google.com/histo.ufrj.br/catedra-ccf-ufrj/medcine

Diálogos com Benjamin Coriat, Comuns e Bem Comum no Antropoceno — Mercado, Clima e Poder

1 OUT – QUA – 10H30 E 3 OUT – SEX – 10H

Apresentação

Ao longo de dois dias de debates, o evento aprofunda a reflexão sobre as noções de bens comuns e bem comum, articulando as contribuições de Elinor Ostrom e Stefano Rodotà às urgências do Antropoceno e da crise climática. No primeiro dia, discutem-se as distinções conceituais e históricas entre communs e biens communs, sua evolução, tipologias e relevância como instrumentos coletivos diante das transformações socioambientais. Já o segundo dia promove um confronto entre a visão de mercado, representada por Jean Tirole, e as perspectivas centradas nos comuns, inspiradas em Ostrom e Rodotà, tendo como horizonte a construção de soluções para a governança climática e a afirmação do bem comum em escala global.

O encontro é realizado em parceria com a Academia do INPI e conta com a participação da antiga Linha de Propriedade Intelectual, Inovação e Desenvolvimento do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED/UFRJ).

Bionote – Benjamin Coriat

Benjamin Coriat é economista e professor emérito da Université Paris XIII (Sorbonne Paris Nord), membro do Centre d’Économie Paris Nord (CEPN). Reconhecido internacionalmente por seus estudos sobre inovação, propriedade intelectual e economia dos bens comuns, foi um dos fundadores do grupo de pesquisa Les Économistes Atterrés. Autor de referência na reflexão sobre as transformações do capitalismo contemporâneo, destacou-se por integrar as contribuições de Elinor Ostrom e Stefano Rodotà na análise dos communs e biens communs, explorando sua relevância para a governança democrática, para a justiça social e para os desafios da transição ecológica. Entre suas obras mais conhecidas estão Le retour des communs (2015) e La pandémie, l’anthropocène et le bien commun (2021).


Debatedores:

Maria Tereza Leopardi – PPED/IE/UFRJ

Allan Rocha de Souza – Professor, Pesquisador, Advogado e Consultor Jurídico; Direito/ITR/UFRRJ – PPED/IE/UFRJ – INCT Proprietas

Presencial:

01/10 — Instituto de Economia da UFRJ – Campus Praia Vermelha, sala 102, Palácio Universitário da UFRJ – Av. Pasteur, 250 – Botafogo

03/10 — Espaço Castro, Lessa e Conceição do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, Av. Rui Barbosa, 762 – Flamengo, Rio de Janeiro

Transmissão:

Canal do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ no YouTube

A nação como imagem recriada

Foi preciso alguns segundos até que a voz atravessasse o silêncio. O som falhou na transmissão híbrida — auditório do CBAE e tela do YouTube se entreolhando — como se o próprio tema resistisse a ser ouvido. Falar de nação é sempre um ajuste de frequência: encontrar o tom que permita ouvir e ser ouvido.

Quando o áudio voltou, a conferência convidada do curso Imagens dos Mundos Reais e Imaginários, oferecido no âmbito da Cátedra Fernando de Souza Barros sob a coordenação de Adalberto Vieyra, ganhou corpo. Foi ele quem apresentou a convidada da noite, a socióloga Elisa Reis, que retomou a pergunta de Ernest Renan: o que é, afinal, uma nação? E lembrou sua resposta imortal, dada em 1882: “a nação é um plebiscito de todos os dias.”

Era 8 de setembro de 2022, logo após o bicentenário da Independência. Três anos depois, ao ouvir as palavras novamente, percebe-se que o gesto não era apenas de celebração. Era convite à reflexão sobre uma independência que ainda não se cumpriu. “Estados nacionais não são produtos acabados e imutáveis”, afirmou Elisa. E explicou que a fusão entre pertencimento e autoridade nunca nasce pronta nem se torna definitiva: preserva e transforma, enfrentando os limites, e valendo-se de oportunidades emergentes para assim mobilizar condições favoráveis e fazendo valer valores e escolhas individuais e coletivas. Em outras palavras, a nação é sempre um campo em disputa, uma fotografia em revelação.

Na sua leitura, o Brasil nasceu com o Estado antes da cidadania. A independência foi proclamada sem ruptura, herdeira da ordem colonial. Já no século XX, o estatuto de cidadania ganha expressão máxima na carteira de trabalho, símbolo da inclusão no mercado de trabalho: um passaporte social regulado pelo Estado, que abria direitos apenas para os que tinham um emprego formal. Uma cidadania seletiva, que ao definir dessa forma a inclusão logicamente excluía os demais.

E a memória, lembrou, é sempre uma edição. “É claro que os indígenas são parte da nossa nação, mas nós fomos socializados de forma a não pensar neles como nossos co-cidadãos, a pensar-los  como uma categoria à margem da história.” O mesmo ocorre com os quilombolas, cuja rebeldia histórica foi eclipsada pelo gesto paternal da princesa Isabel. A nação que contamos não é mentira: é uma edição renovada. Um enquadramento que desfoca uns e ilumina outros.

Também os slogans tentaram reduzir o Brasil a uma única moldura: “Ame-o ou deixe-o.” “Brasil acima de tudo.” Fórmulas que prometem unidade, mas na verdade expulsam. Elisa foi enfática: “Um discurso nacionalista que propõe parcialidade é uma contradição em termos.”

Nesse ponto, a ciência entrou em cena. Não como torre de marfim, mas como prática pública. “A ciência que nós produzimos custa algo aos cofres públicos. E nós temos o dever, a obrigação moral de retribuir”, afirmou. Retribuir como? “Mostrando que conhecimento só baseado na vontade não avança, que o futuro depende de compatibilizar vontade, análise objetiva dos limites e oportunidades, e confiança.”

Ciência, portanto, como serviço público de clareza — não acima das pessoas, mas com elas.

Ao final, a imagem da nação se delineava como obra aberta. Memória e esquecimento, autoridade e pertencimento, projeto e oportunidade. Uma nação que precisa ser refeita a cada geração. É nesse sentido que Renan ressoa, mais atual do que nunca: a nação é plebiscito cotidiano.

A conferência terminou, o auditório se dispersou, a transmissão online foi desligada. Mas ficou no ar um compromisso: recriar a imagem da nação com mais luz e menos desfoque, ajustando o contraste à altura da nossa complexidade. Se a independência é mito, cabe desmontá-lo. Se é prática, cabe exercê-la.

Hoje, 7 de setembro de 2025, votamos de novo. E amanhã também.
É assim que um país aprende a dizer seu nome em voz clara. E a se ouvir.

Texto: Wellington Gonçalves — revisão: Elisa Reis.

A crônica faz referência à conferência A Nação como Imagem Recriada, apresentada em uma das sessões do curso Imagens dos Mundos Reais e Imaginários: dos Átomos às Catedrais Passando pela Mente, realizado no âmbito da Cátedra Fernando de Souza Barros, sob a coordenação de Adalberto Vieyra, com a colaboração de Cláudia Melmerstein e Manoel Luis Costa, em 08/09/2022, e transmitido pelo canal do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ no YouTube. Disponível em: Transmissão YouTube – Conferência A Nação como Imagem Recriada

Conhecimento, Interculturalidade e Sujeitos na Articulação Universidade e Escola Básica: o Futuro da Formação Docente

10 SET – QUA – 17H30/19H30

Cátedra Anísio Teixeira de Formação de Professores

Conferência Conhecimento, Interculturalidade e Sujeitos na Articulação Universidade e Escola Básica: o Futuro da Formação Docente

O encontro é um convite ao diálogo e à construção coletiva de reflexões que apontem para a formação docente situada, plural e comprometida com a diversidade, a equidade e a transformação social.

Conferêncista:

Professora Dra Ana Maria Ferreira da Costa Monteiro, Professora titular emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Presencial:

Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, Av. Rui Barbosa, 762 – Flamengo, Rio de Janeiro.

Transmissão:

Canal do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ no YouTube

Hertha Meyer sou eu quando a memória resiste

Naquela segunda-feira, às cinco da tarde, o canal do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ no YouTube se fez sala escura. A tela acendeu com quatro palavras que soaram como batida na porta da memória: Hertha Meyer sou eu. Mulher, judia, alemã — sua biografia começa na Europa dos anos 30, atravessa a Itália e desemboca no Rio de Janeiro, quando a antiga Universidade do Brasil, hoje UFRJ, erguia espaço para a ciência pública. Foi ali que Hertha encontrou abrigo e transformou a universidade em sua trincheira.

Wanderley de Souza, discípulo e herdeiro acadêmico, não conteve a emoção: “Dona Hertha soube o que é medo. Medo da morte iminente.” A lembrança não fecha um passado; abre três tempos. O dela, nos anos 30, quando o nazismo transformou futuro em fuga. O de 2021, quando a ciência brasileira sangrava sob cortes. O nosso, em 2025, quando recordamos que a memória continua sendo campo de batalha.

No Instituto de Biofísica da UFRJ, Hertha transformou exílio em método. Foi pioneira no cultivo celular e ajudou a desvendar o ciclo do Trypanosoma cruzi — parasita causador da doença de Chagas — a doença do barbeiro. Em termos simples: dentro de uma célula, multiplica-se até romper o tecido e seguir infectando. Seu trabalho repercutiu no mundo todo, embora ela mesma repetisse, com humildade: “Não me chame de doutora, não fiz doutorado.” Tornou-se referência sem precisar de títulos honoríficos.

O filme, porém, não deixa que a cientista esconda a mulher. Débora Foguel, tomada pela emoção, lembrou que Hertha, sem filhos, pedia notícias diárias das crianças dos colegas: “Era nisso que se alegrava.” Tratava Wanderley como filho acadêmico; com Débora, exercia o afeto de uma avó improvisada. Outras cenas completam esse retrato: a bengala nas escadas do Instituto, as férias nos Alpes suíços, o “Nunca mais Alemanha” dito como cicatriz, os chocolates discretamente partilhados.

O debate apenas afinou o que a tela já declarava: memória é disputa. Erika Negreiros disse sem rodeios: “As grandes narrativas históricas nos silenciaram… falar da memória feminina é costurar pedacinhos de histórias fragmentadas.” Recuperar Hertha é enfrentar o peso das estruturas patriarcais que empurraram tantas mulheres ao rodapé da história.

A produção ainda recorda a circulação internacional — como a passagem de Rita Levi-Montalcini pelo Rio, futura Nobel que compartilhou bancada com Hertha. São fios que confirmam: ela pertence a uma história global da ciência, também escrita nos corredores da universidade pública brasileira.

Na altura dos 25 minutos, a pesquisadora Carolina Alves crava a síntese: “Falar da história das mulheres na ciência é disputar narrativas, lutar contra o silenciamento e o apagamento.” A frase atravessa o tempo: em 2021, quando a democracia era contestada por autoritarismos; e em 2025, quando a universidade pública deve permanecer em alerta. É preciso estar atenta e forte, mesmo em novos contextos, para nunca mais esquecer.

O título deixa de ser título e vira espelho: “Hertha Meyer sou eu.” É a cientista exilada; é a professora que acorda cedo; é a estudante de primeira geração universitária; é quem insiste em fazer ciência com brilho nos olhos. Em 2021, o média foi laureado no VII Festival Arquivo em Cartaz – Arquivo Nacional; mas talvez o prêmio maior seja outro: romper o silêncio imposto e devolver às mulheres o lugar que lhes foi negado. Nada está dado: é memória e resistência.

E para deixar-se atravessar pela história, não basta ler aqui. O filme Hertha Meyer sou eu está disponível ao final desta matéria — onde imagens, vozes e silêncios dizem o que esta crônica não tem condições de imprimir.

Texto: Wellington Gonçalves — revisão: Marilia Zaluar Guimarães

A crônica faz referência ao lançamento e debate “Hertha Meyer sou eu”, no âmbito da Cátedra Hertha Meyer de Fronteiras das Biociências, sob a coordenação dos titulares Marilia Zaluar Guimarães e Stevens Rehen, em 26/07/2021, transmitido pelo canal do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ no YouTube. Disponível em: Lançamento e debate “Hertha Meyer sou eu”

HERTHA MEYER SOU EU – Direção: Marília Zaluar Guimarães. Brasil, edição e produção artística da ArtBio, 2021. 28m 35s

Seminário Internacional – Saberes Ancentrales: Re-existiendo en la Era de la IA

10 e 11 – SET – 9H

Dia 10/09: das 9h às 13h – Híbrido
Dia 11/09: das 9h às 17h – Online

Em uma era dominada pela ascensão da Inteligência Artificial, como podemos garantir que a tecnologia sirva à essência humana sem apagar a diversidade de saberes do mundo? O Seminário Internacional “Saberes Ancentrales: Re-existiendo en la Era de la IA” nasce para tecer pontes entre mundos aparentemente distantes. O evento propõe um diálogo inédito entre os princípios de relacionalidade e equilíbrio das cosmovisões Andina e Awajún e a lógica da ciência ocidental que fundamenta a IA. Mais do que um debate sobre tecnologia, este é um convite para co-desenhar futuros possíveis, explorando como a resiliência e a sabedoria ancestral podem nos inspirar a desenvolver e aplicar a IA de forma ética, intercultural e a serviço do Bem Viver. Junte-se a nós para semear caminhos de re-existência.

Realização: Laboratório de Estudo das Ciências (LEC) , Colégio Brasileiro de Altos Estudos (CBAE) , UFRJ e CNPq.

Programação:

Faça o download da programação completa

Presencial:

Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ, Av. Rui Barbosa, 762 – Flamengo, Rio de Janeiro.

Transmissão:

Canal do Laboratório de Estudo das Ciências da UFRJ no YouTube